Marina Silva
REDE

Artigo Valor: Para além das circunstâncias

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 30/11/2016

Pouco depois de completado um ano do maior crime ambiental do país, a tragédia vivida em Mariana (MG) e pela população de cidades igualmente afetadas pelo rompimento da barragem da Samarco, estávamos novamente prestes a sofrer uma outra enxurrada de lama, só que desta vez no ambiente político do país. A onda de lama queria arrastar para a vala comum da impunidade crimes cometidos contra a democracia, as finanças públicas e a vida dos cidadãos.

Felizmente, soaram os alarmes e a reação contundente da sociedade, com o apoio da imprensa, conseguiu evitar a tragédia maior – pelo menos até agora. Parlamentares que se elegeram com recursos ilegais, como agora a sociedade começa a tomar conhecimento a partir das delações premiadas e das investigações realizadas pela operação Lava-Jato, usam desesperadamente seus mandatos para invalidar as penas pelos crimes que cometeram com o uso de recursos provenientes do caixa dois. Mas essa mobilização política por uma anistia ilegítima agrediu uma sociedade já machucada e farta de tanto desrespeito.

O presidente Michel Temer, temendo que esse “bicho” ferido ameaçasse seu próprio telhado de vidro, resolveu, tardia e constrangedoramente, remover um de seus mais influentes ministros, o qual igualmente buscava sua própria anistia para o crime que queria cometer contra a gestão pública e o patrimônio histórico de um dos símbolos de nossa identidade, a Salvador de todos os brasileiros.

Em uma outra frente, outro homem forte da sustentação política do governo Temer vinha usando as prerrogativas do Senado Federal para intimidar juízes, policiais federais e membros do Ministério Público Federal na indisfarçável intenção de ameaçar quem o está investigando.

No fim de semana, por medo e constrangimento, a trinca Temer-Maia-Calheiros anunciou que não apoiará a proposta de anistia para o crime de caixa dois. Propositadamente, não mencionaram nada a respeito da lei de abuso de autoridade que busca intimidar para não investigar e para não punir. Um sistema judiciário intimidado e com medo dos criminosos é a antessala da barbárie política e social. Basta olharmos para a Venezuela para ver o risco que corremos de nos tornar politicamente insustentáveis.

Nesta mesma semana, porém, outros dois eventos que ocorreram em São Paulo e em Minas Gerais nos apontam caminhos para sair deste ciclo vicioso. Um deles foi o Fórum Desenvolvimento e Economia de Baixo Carbono e o outro, o Fórum do Amanhã. Participando desses dois eventos havia um belíssimo time de brasileiros, integrado por jovens, especialistas, acadêmicos, empreendedores sociais e lideranças de vários segmentos discutindo ideias, trocando experiências e refletindo sobre os desafios da agenda estratégica que o Brasil precisa seguir na educação e para se desenvolver com sustentabilidade nas dimensões social, ambiental, econômica, cultural, política, ética e até mesmo estética.

De um lado, a energia criativa e vibrante da sociedade pensando e prospectando sobre as melhores possibilidades de que dispomos agora para a construção do futuro; do outro, representantes eleitos disputando sem trégua a liderança do atraso. Esse fosso entre representantes e representados é o nó górdio que fragiliza nossa democracia, empurra para o abismo as conquistas sociais, econômicas e institucionais dos últimos 30 anos e gera nas pessoas um sentimento de desesperança e indignação.

Durante os interessantes debates desses eventos, dois momentos me chamaram a atenção: as inteligentes reflexões do economista Eduardo Giannetti sobre um conceito próprio de desenvolvimento para o Brasil; e as análises apuradas pelo economista Marcos Lisboa, que refletiu sobre a importância e os desafios da produtividade brasileira para uma sociedade próspera e sustentável.

Temos que encarar o desafio econômico de pensar e apresentar alternativas para que o Brasil deixe de ser apenas o país gigante pela própria natureza para ser gigante pela natureza das nossas escolhas. O Brasil pode se tornar a grande referência mundial de uma economia de baixo carbono e de uso sustentável dos recursos naturais. Temos muitas vantagens comparativas que podem ser efetivamente transformadas em vantagens competitivas nas cadeias globais de produção e em novos setores da indústria. É bastante inspirador saber que para além da crise que estamos vivendo, temos um conjunto bastante qualificado de técnicos do governo, profissionais da academia, da imprensa, de organizações da sociedade civil e de empresas, buscando alternativas viáveis para consolidação de uma outra economia.

A sociedade está grávida de soluções, projetos e ideias, mas a maior parte dos governantes estão estéreis, tanto em suas práticas, quanto em suas opiniões. Isso acontece sempre que os mecanismos de troca entre representantes e representados são obstruídos pelo excesso de certezas dos que se encontram em situação de comando. Tenho repetido que quando a política já não consegue, com base na legitimidade da lei, ser capaz de resolver a maioria dos problemas, a única saída que lhe resta seja pedir socorro a justiça. Mas a insustentabilidade da crise política que estamos vivendo é tão grave e profunda, que talvez para sair da crise já não seja suficiente apenas a balança da justiça e a medida da política.

Que tal recorrer à coragem da psicanálise que nos desafia a vertigem do imprevisível, na desconstrução da ilusão da promessa, sobretudo daquelas que se pretendem abarcar a tudo e a todos. Apoiar-se na ousadia livre da arte que atravessa as barreiras do tempo, quebrando paradigmas e convenções, mesmo na maioria das vezes, correndo o risco de ser atropelada, por ter se especializada a andar na contramão, e na loucura da fé, que humildemente ensina que “Deus usa as coisas que não são para aniquilar as que são”.

Não temos que nos render às circunstâncias. Podemos inundar o lago da política com águas limpas, de outras fontes. E isso é tanto mais necessário quando reconhecemos a complexidade da crise civilizatória que estamos vivendo e soubermos que as respostas para essa crise talvez já estejam no tecido da própria civilização.

Texto publicado no jornal Valor Econômico

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