Marina Silva
REDE

Artigo Valor: Redefinir o futuro

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 23/12/2016

Recebo diariamente nas redes sociais – com a certeza de que não sou a única – comentários inflamados repletos de falsidades e acusações que, de tão absurdos, tornam quase impossível qualquer tentativa de esclarecimento. Nesse tipo de linguagem primitiva da política, produzida na garganta, em prejuízo do cérebro e do coração, a mentira é evidente. E ainda assim é repetida, reavivada, se espalha e prospera com rapidez.

Na carência de fatos, sobram suposições que não dependem de tempo e lugar para serem repetidamente manipuladas, já que o parâmetro de veracidade de uma notícia na internet parece tornar-se proporcional à sua propagação. Quanto maior o número de compartilhamentos, visualizações, cliques e comentários, maior a chance do enunciado ser tomado como verdade. A máxima “eu vi na internet, então é verdade” prescinde de argumentos e verificações.

Esse é um dos reflexos de uma realidade em que o absurdo tornou-se “normal” e pode ser esperado, sobretudo na política.

A internet, assim como outras tecnologias, é apenas um meio e, obviamente, não possibilita por si mesma que um acervo de conhecimentos, experiências, valores e princípios oriente seu uso para ações criativas, produtivas e livres, comprometidas com o que é justo e verdadeiro. A tecnologia precisa caminhar ao lado de uma educação de qualidade, formadora de uma cidadania baseada no respeito à diferença, uma cultura de paz, o combate ao preconceito e à violência, a superação das injustiças e o fortalecimento da democracia. O acesso à mais avançada tecnologia não significa que estamos cultivando melhores valores.

Hoje estamos vivendo uma profunda insegurança, como bem caracteriza o filósofo polonês Zygmunt Bauman. A violência verbal e imagética expressada na internet é criada por essa insegurança e a retroalimenta, produzindo mais inibições e restrições à liberdade de cada pessoa.

Um dos elementos da grave crise que vivemos é a credibilidade das instituições políticas, derivada de um déficit agudo de honestidade de uma grande quantidade de partidos e lideranças políticas dos diferentes espectros ideológicos. Isso tende a ampliar a manifestação indignada nas redes, movida por posicionamentos munidos da “cegante claridade” de certezas que até podem dar alguma sensação de segurança e afastar o medo, mas impede que pontos de vista diferentes sejam expressados, pois não dão espaço para o debate.

Os ataques podem parecer pessoais, mas são, às vezes, manifestações de repúdio à estagnação de um sistema político, que sob uma repetição neurótica da mesmice – um misto de propaganda enganosa e escândalos de corrupção – não consegue apresentar saídas para uma crise cada vez mais profunda. A busca incessante do poder, descolada das reais demandas da sociedade, só agrava a crise e aumenta a desconfiança em relação a tudo o que possa parecer a continuidade do mesmo e dos mesmos.

Esse movimento ficou mais forte a partir da campanha eleitoral de 2014, em que o “marketing selvagem” se valeu de uma série de ataques despropositados em vez de apresentar propostas para convencer a sociedade. E vejam a que ponto chegamos. O divórcio da chapa eleita acabou por se entregar, ao fazer o contrário do que havia dito e implementar – no dia seguinte! – o que havia negado na campanha. A fraude eleitoral e a corrupção – irmãs gêmeas –colocam em xeque o que foi conquistado a duras penas pela sociedade – a estabilidade econômica e as políticas sociais. E a crise fiscal também está no âmbito dessa irresponsabilidade política que manipula informações para fins eleitorais ou para desconstruir adversários.

Um dos melhores remédios para combater esse tipo de marketing selvagem nocivo à democracia é estimular, por meio de uma espécie de pós-educação política, a capacidade de discernimento da sociedade.

Nosso maior desafio nos dias de hoje está na contribuição que podemos oferecer aos jovens na sua busca por novos ideais identificatórios. Atualmente, parte da mídia e muito do marketing dão suporte a um ideal identificatório referenciado no consumo. O padrão de consumo atual, se medido pela capacidade de suporte do planeta, tem um prazo de validade de curtíssima duração, mas passa a ideia de que pode se perpetuar como a principal métrica de sucesso e realização.

Nossa tecnologia, na busca pelo controle da natureza, acabou por atingir os limites de sustentação da vida humana em escala planetária. Por isso, nossas escolhas econômicas podem colocar em risco recursos de milhares de anos pelo lucro de apenas algumas décadas.

É justamente esse modelo econômico mais insustentável e devastador que se apóia no modus operandi que privilegia determinados interesses pelo controle do Legislativo e estende seus tentáculos ao Executivo para direcionar políticas e prioridades. A devastação anda junto com a corrupção institucionalizada e sistêmica. É o que nos revela a operação Lava Jato.

Tudo isso indica que estamos vivendo muito mais que uma crise na política, uma crise da própria política. Assim, um dos principais desafios das novas gerações é encontrar ideais identificatórios que nos ajudem a superar o modo “gutural” de expressar nosso mal estar e insatisfação. O diálogo e o respeito ao diferente é essencial pois, como costuma repetir o psicanalista argentino Jorge Gonçalves da Cruz, “não é hora de juntar, mas de dispersar”. Um novo vento que faça a dispersão das boas sementes da democracia.

Termino esse artigo fazendo coro a uma passagem do último livro do economista Eduardo Giannetti, “Trópicos Utópicos”, como meus mais sinceros votos para o ano que se anuncia:

“A biodiversidade da nossa geografia e a sociodiversidade da nossa história são os principais trunfos brasileiros diante de uma civilização em crise. – Que o mal e o pouco de tempo presente não nos deprimam nem iludam ou desanimem. O futuro se redefine sem cessar – ele responde à força e à ousadia do nosso querer. Vem do breu da noite espessa o raiar da manhã”.

Leia o artigo publicado no Valor Econômico

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