Marina Silva
REDE

Artigo Valor: Trump lidera o atraso

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 31/01/2017

A opinião pública e os movimentos sociais e ambientais estão apreensivos em todo o mundo. Não é sem razão: as primeiras medidas do novo presidente norte-americano, Donald Trump, projetam sobre a economia e a democracia dos EUA uma sombra de retrocessos que se estende muito além de suas fronteiras.

A equipe de governo tem uma mensagem clara: governar é fazer negócio. Em seus perfis e trajetórias vê-se que estão umbilicalmente ligados à indústria do petróleo e se opõem à existência de limites e regulamentações à atividade, especialmente em questões de natureza ambiental. E os primeiros atos de governo têm como objetivo remover restrições aos negócios, para que não tenham que observar cuidados com a qualidade do ar e da água, a biodiversidade e os direitos indígenas.

Minutos após o juramento de Trump, todas as referências ao aquecimento global e às mudanças climáticas desapareceram do site da Casa Branca. Em seu lugar há uma seção chamada “Um Primeiro Plano de Energia da América” em que o governo promete eliminar “regulamentos onerosos sobre a nossa indústria de energia, como o Plano de Ação Climática”, aprovado no governo Obama.

Trump decidiu ressuscitar dois grandes projetos de oleoduto, Keystone XL e Dakota Access. O Keystone foi vetado por Obama em 2015, quando a sociedade mostrou que o projeto aumentaria as emissões do país em 8,4 bilhões de toneladas de CO2, prejudicando os esforços dos EUA no cumprimento da meta do Acordo de Paris de estabilizar a elevação da temperatura do planeta abaixo de 2°C.

Já o oleoduto Dakota Access, para levar petróleo extraído por “fracking” de Dakota do Norte até Illinois, impactará a terra dos índios Sioux e deixará vulnerável à contaminação a única fonte de abastecimento de água da tribo, o rio Missouri. A construção foi suspensa em dezembro, após violenta repressão policial contra os índios e ambientalistas que realizavam um empate da obra.

Outra medida de Trump foi exigir aprovação rápida do licenciamento ambiental para obras de infraestrutura que o governo considera prioritárias. Isso suprime o próprio licenciamento, substituindo a análise técnica pela conveniência e interesses políticos e econômicos de governo e empresas. A mesma atitude se estende a outros setores, com total desprezo por complexas negociações multilaterais, como no decreto que acabou com o Tratado de Cooperação Transpacífico.

Sua investida atinge ainda outro pilar fundamental da democracia norte-americana: a transparência e a participação social. Ao proibir que funcionários da Agência de Proteção ao Meio Ambiente informem suas atividades, ele parece querer realizar nas sombras um desmonte da governança ambiental criada há décadas. Há grande preocupação também na comunidade científica, com a possibilidade do governo interromper o financiamento de pesquisas sobre o clima feitas pela Nasa em consórcio com entidades do mundo inteiro, e impedir a divulgação de dados científicos importantes que não caibam em sua obscura “pós-verdade”.

O argumento para justificar esse desmonte da governança ambiental é a necessidade de gerar empregos. Ora, pode-se gerar empregos estimulando energia não-poluente, como fazia Obama e como estão fazendo países da Europa e a China. O que se pretende, na verdade, é garantir o lucro de grandes corporações, especialmente do petróleo, transferindo prejuízos para a sociedade e às futuras gerações. Retornamos ao drama da Revolução Industrial que se estendeu por dois séculos e gerou o desastre climático global: oferece-se empregos em indústrias poluentes e nega-se o direito de viver em um ambiente saudável.

Na inquieta década 60, parte da sociedade começou a perceber que o sistema era insustentável e que a qualidade de vida está no ar que se respira, na água que se bebe e que irriga alimentos. Em 1962, uma mulher corajosa iniciou uma luta contra a poderosa indústria de inseticidas que contaminava ecossistemas e afetava a saúde das pessoas. Rachel Carson fincou uma das bases da governança ambiental que protegeu por décadas a vida dos norte-americanos e do mundo todo. Agora vemos o retorno da mentalidade que foi derrotada pela força das evidências e a autoridade dos argumentos de Carson.

A função de um governante é advogar a causa de todos, mediar interesses e conflitos, decidir o que é mais adequado para a maioria. Trump mostra que veio para atender aos interesses de uma parte, estigmatizando os que pensam diferente. Parece acreditar que o lucro de poucos vale mais que o sofrimento de muitos amanhã. Por isso rejeita e debocha das evidências científicas das mudanças climáticas. Não importam a ciência ou o bom senso: é a realidade que deve se adaptar ao sistema.

E além dos retrocessos na área ambiental, Trump atenta contra os direitos humanos ao proibir a entrada de refugiados muçulmanos da Síria, Irã, Sudão, Líbia, Somália, Iêmen e Iraque. Como bem lembrou a chanceler alemã Angela Merkel, na condição de signatário da Convenção de Genebra, os Estados Unidos são obrigados a receber refugiados de guerra e não deveriam generalizar as suspeitas de terrorismo contra pessoas em função do seu país de origem ou de sua condição religiosa.

Espero que esse percalço histórico nos Estados Unidos faça emergir uma nova onda de solidariedade para barrar intolerância, egoísmo e desprezo pela vida. E que isso ajude o Brasil, onde a indignação da sociedade já não suporta retrocessos iniciados por Dilma, agora aprofundados pelo seu sucessor, como ocorre no licenciamento ambiental e na demarcação de terras indígenas.

Assim como no Brasil, onde depositamos no Judiciário a esperança para corrigir condutas políticas e empresariais contaminadas pela corrupção, também nos Estados Unidos os defensores da boa governança socioambiental esperam reverter os retrocessos de Trump por meio de intensas batalhas judiciais. Mas tanto lá como aqui, somente uma opinião pública informada e mobilizada pode conter o avanço do atraso. Espero que possamos, lá e cá, retomar os caminhos abertos por idealistas como Chico Mendes, Rachel Carson e tantos outros que lutaram por um desenvolvimento capaz de cuidar das pessoas e da natureza.

Artigo publicado no jornal Valor Econômico

 

 

 

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