Marina Silva
REDE

É preciso reacender a esperança de um futuro melhor

Brasil por se descobrir

O que significa falar sobre as perspectivas para o Brasil em um momento de tantas dores e dificuldades, como o que estamos vivendo hoje nesse mundo plasmado de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, resumido na sigla “vuca”, em inglês, e que em português parece ter virado muvuca?

A chegada do fim do ano é um momento propício para pensarmos em novos começos. E por que não tentarmos unir as pessoas para encontrar uma aspiração de país, como parte significativa de nossa busca por um Brasil ideal? Qual será o sonho de Brasil com o qual precisamos passar a nos identificar depois dessa grave crise politica, econômica, social e de valores?

Tenho insistido que o Brasil possui um enorme potencial para ter protagonismo e ser uma liderança global na agenda de desenvolvimento sustentável. Temos clima favorável, mão de obra abundante, diversidade sociocultural, disponibilidade de água doce, mega biodiversidade, economia diversificada, sistema financeiro moderno, pesquisa tecnológica, relativa capacidade inovadora, além de uma democracia estável, apesar da crise política.

No entanto, ainda temos preocupantes déficits de investimento. O Brasil é marcado por uma profunda desigualdade social, que exige do Estado políticas públicas em larga escala. Temos um baixo estoque de capital, seja na forma de máquinas e investimentos, seja na forma de infraestrutura instalada. Há uma ineficiência do Setor Público. O pacto federativo foi construído em cima de uma excessiva centralização fiscal. E mesmo com aumento de escolaridade, nossa produtividade tem se mantido estagnada.

Os dados lançados recentemente pelos indicadores sociais do IBGE mostram como o impacto da crise é agudo nas crianças e nos jovens. O país tem 11,6 milhões de jovens entre 16 e 29 anos que nem estudam e nem trabalham, e isso cresceu nos dois últimos anos. Cerca de 42,4% das 42,1 milhões de crianças de zero a 14 anos de idade, quase a metade das crianças do país, são vítimas da pobreza e vivem com renda domiciliar per capita inferior a 5,50 dólares por dia.

São inúmeros os desafios que o país tem pela frente, a começar pela democracia atual, que precisa deixar de ser meramente dos políticos para ser uma democracia real para todas as pessoas. Para isso a sociedade  brasileira precisa mostrar aos seus governantes que não aceita mais, o velho “mecanismo” de acesso às estruturas de poder a qualquer custo, desviando recursos públicos em larga escala e fazendo uso de investimentos para bancar e favorecer com subsídios e isenções determinados setores da economia, como a política de promoção de grandes conglomerados nacionais e algumas obras de desenvolvimento.

A indignação e a desconfiança dos brasileiros com a política é crescente e generalizada. Os governantes deixaram de resolver os problemas do dia-a-dia da vida das pessoas para se locupletar. A sensação generalizada de insegurança, abandono e vulnerabilidade dos brasileiros cria um ambiente perigoso para discursos populistas e autoritários ganharem força na sociedade. Isso enfraquece a democracia e infantiliza a participação dos diferentes segmentos da sociedade na definição dos rumos da nação.

O sonho por um Brasil unido, próspero e justo, baseado em um projeto generoso de nação, não pode ser interditado por posturas extremistas de pretensos salvadores da pátria, que insistem em equilibrar-se no poder, com base apenas na velha e reducionista equação de “manter as forças sociais sob controle, nutrir bom relacionamento com os militares e ser generoso com as elites econômicas”, como bem descreveu Marcos Costa, em livro de título apropriado para o vexame político que estamos vivendo, “A história do Brasil para quem tem pressa”. 

Os brasileiros demandam novos padrões de desempenho do setor público, com definição de indicadores, metas e avaliação permanente de resultados das políticas públicas e o estabelecimento de regras claras, ágeis, confiáveis e justas, além da necessária transparência, que permite controle social sobre agentes e instituições públicas. Há uma tarefa urgente para ajudar a significar aquilo que a sociedade sabe, sente e almeja, mas ainda não transformou em palavras, para poder expressar seu mal-estar, sua dor ou sua alegria. Como diz a música do Gilberto Gil, o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe.

O Brasil apresentou sinais parciais de melhora na economia, mas dificilmente haverá uma retomada mais robusta se não houver uma melhora na política. Com a queda da inflação, houve uma ligeira indicação de recuperação, mas o rombo fiscal persiste e os dados sociais ainda são graves. São mais de 12 milhões de desempregados e a renda média ainda é baixa, colocando muitas famílias em situação de vulnerabilidade.

Essa crise enseja a incômoda pergunta: o que fizemos e estamos fazendo com a liberdade que conquistamos a duras penas? Estamos usando nossa liberdade para por um fim ao ciclo perverso que parece sempre ajustar o nosso imenso potencial econômico, sociocultural, político, ao tamanho medíocre da lógica do poder pelo poder e do dinheiro pelo dinheiro, que entra pelas portas dos fundos por meios de atalhos escorregadios da ilegalidade, em lugar da entrada pela porta da frente pelos caminhos seguros da nossa Constituição?

O país gigante pela própria natureza precisa se descobrir gigante pela natureza das suas decisões. Algo novo pode surgir no Brasil. Prosperidade econômica não pode ser sinônimo de corrupção, indiferença com o sofrimento das pessoas e destruição da natureza. Há um Brasil que precisa se descobrir para se reinventar, mostrando que é possível uma política econômica que combine equilíbrio fiscal, controle da inflação, diminuição dos juros, redução das desigualdades sociais e incentivos ao ganho de produtividade nos setores dinâmicos da economia, com maior agregação de valor, conhecimento e sustentabilidade ambiental.

É preciso reacender a esperança de um futuro melhor e construir as bases para esse modelo de desenvolvimento justo e sustentável, comprometido com a ética, com a preservação dos recursos naturais e com a distribuição de renda e da riqueza. Que o Brasil possa descobrir sua enorme grandeza pela consciência do bem de cada brasileiro e brasileira, afinal a boa nova, a cada ano, não cessa de ser rememorada na graciosa forma de um menino, nos encorajando, apesar das circunstâncias, a não ficarmos constrangidos de dizer: Feliz Natal e um Feliz Brasil para o próximo ano novo.

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 22/12/17

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