Marina Silva
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Entrevista Estadão: PMDB e PT são irmãos siameses na crise

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Entrevista de Marina Silva ao jornal O Estado de S.Paulo – publicada em 22/03/16


Marina Silva, candidata derrotada à Presidência em 2014 e atual líder da Rede Sustentabilidade, afirmou nesta segunda-feira, 21, ao Estado que um eventual governo Michel Temer não teria legitimidade, pois seria irmão siamês da gestão Dilma Rousseff. Por esse motivo, Temer não contaria com a adesão da Rede Sustentabilidade.

Candidata duas vezes derrotada à Presidência (2010 e 2014), Marina lidera as pesquisas de intenção de voto, mas evita colocar-se como o nome capaz de conduzir o país num eventual momento pós-PT. Ela diz preferir esperar uma definição sobre o mandato de Dilma.

A criadora da Rede refuta o argumento de que o impeachment seria um golpe, como afirma a presidente, mas insiste em dizer que o mais legítimo seria a cassação da chapa eleitoral de Dilma, da eleição de 2014, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Os seis ministros do TSE devolveriam para os 200 milhões de brasileiros a possibilidade de reparar o erro a que foram induzidos a cometer, afirma ela, sem, no entanto, confirmar se seria candidata novamente à Presidência.

Para ela, setores interessados no impeachment gostariam de travar as investigações da Lava Jato. Apesar dos elogios à operação, Marina evita dizer se apoia decisões do juiz Sérgio Moro relacionadas ao ex-presidente Lula, assim como a condenar o petista antes do julgamento.

O que alcança a legalidade e a finalidade de resolver a crise seria o processo de cassação no TSE. Isso se devidamente comprovado que o dinheiro da Lava Jato foi utilizado na eleição da chapa do PT e do PMDB. Os seis ministros do TSE devolveriam aos 200 milhões de brasileiros a possibilidade de reparar o erro a que foram induzidos a cometer.

O impeachment cumpre uma formalidade e até dá uma resposta política imediata, mas não cumpre com a finalidade de resolver a crise e de passar o Brasil a limpo. Ao final dele, a metade que patrocinou a crise estará lá, que é o PMDB. O PMDB, durante 12 anos, como irmão siamês do PT, indicou diretores para a Petrobras e tomou decisões políticas que nos levaram à crise. O Brasil está vivendo um momento de emergência econômica, política e social. Não podemos, em hipótese alguma, permitir que haja emergência institucional. Se estamos dizendo que queremos passar o Brasil a limpo, que o Brasil se recupere com base na legalidade e na credibilidade, então não há como isentar uma parte que ajudou a patrocinar tudo que está aí.

Acho precipitado você se colocar na fila de eleição antes de devolver a quem pode votar o direito de votar.

É um processo que está em tramitação, que tem de ter o sentido de urgência e a celeridade de que o Conselho de Ética precisa para atuar no caso do presidente Cunha. Ele já deveria ter sido afastado se não fossem as manobras protelatórias que vêm sendo feitas.

Eu não participei exatamente para não ter a ilusão de que as pessoas estão indo para a rua porque eu estava ajudando. As pessoas estão se mobilizando porque querem dizer que o que está aí não as representa. As pessoas estão corretas. Se as lideranças e os partidos políticos deixaram tudo isso acontecer, as pessoas estão corretas em não querer que tirem casquinha do protesto.

Não é momento de ficar pensando em pesquisa. O mais importante não é quem esta à frente ou quem está atrás. É quem está apenas com 16% (de pessoas que consideram que o governo Michel Temer seria bom ou ótimo) querendo ser o polo que vai resolver o problema da nação. Isso (impeachment) pode ser feito em 30 dias e não resolver. Neste momento, é importante que a gente esteja focado no que é efetivo; em resolver a crise, e não em instrumentalizar a crise.

Há setores que estão querendo estabilizar a crise política nos dois polos, tendo um cruzamento em que são convergentes. Dentro do governo, há muitos que estão querendo atrair de novo o PMDB. Dentro do PSDB, outros querendo se unir ao PMDB. Há um ponto convergente nos dois campos que se cruzam. Eles se cruzam e se encontram com a mesma proporção e a mesma intensidade, que é o arrefecimento das investigações. Isso é preocupante.

A Justiça tem seus mecanismos próprios de controle. A Lava Jato tem dado grande contribuição.

A Lava Jato não grampeou a presidente. O ex-presidente Lula estava sendo investigado, havia autorização da Justiça para fazê-lo. E a conversa foi apanhada de forma fortuita.

Logo que foi feita a nomeação eu entendia como uma espécie de paliativo para a crise, criando ali, num regime presidencialista, a figura do primeiro-ministro. Isso não está previsto na nossa Constituição. Depois de tudo que aconteceu com essa nomeação, passei a ver como um combustível de aprofundamento da crise. É preciso fazer adequadamente a leitura das ruas, que tinham acabado de se manifestar, dizendo que não estão satisfeitas com o que está aí.

Se as pessoas são culpadas, se as pessoas cometeram erros e isso fica comprovado, quem enterrou a carreira foi ela. O problema é que, nesses anos todos, a política foi tomada como sinônimo de ascensão econômica e de ascensão social. Quando isso ocorre, é preciso que um movimento dê um basta nisso, trazendo a Justiça para restabelecer os parâmetros legais, que é o interesse público. O que aconteceu na Itália, em que a Operação Mãos Limpas foi sendo minada, desmoralizada para não cumprir com suas funcionalidades, não pode acontecer no Brasil.

Lula ainda está dando explicações, ainda está sendo julgado. As explicações ainda estão no processo. Obviamente até agora não são satisfatórias todas as respostas que vêm sendo dadas. Não só a esse caso, mas a todos os demais.

Por incrível que pareça, tudo que foi projetado em mim (na campanha de 2014, quando ela foi acusada de não ter capacidade de aglutinar apoios) agora acontece sobre quem projetou. Para ver como a derrota ou a vitória se assemelham na história. Se não tivermos uma atualização da política, quem quer que seja terá dificuldade de governar. Tanto é que aqueles que ganharam com um condomínio de partidos não estão conseguindo governar.

 

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