Marina Silva
REDE

Entrevista Valor Econômico: “Credibilidade é fundamental para diálogo”

Por Daniela Chiaretti – publicado no Valor Econômico em 20/03/15


 

marina valorA ex-ministra do Meio Ambiente e ex-senadora Marina Silva, terceira colocada nas eleições presidenciais de 2010 e 2014, ambas vencidas por Dilma Rousseff, rompeu seu período de silêncio e classificou os atos massivos do dia 15 como “uma manifestação fantástica que extrapolou qualquer expectativa”. A presidenciável, contudo, condenou a ideia de se pedir agora o impeachment de Dilma Rousseff, uma bandeira comum nos atos de domingo. “A ideia do impeachment, sem que se tenha um fato que diga que há responsabilidade direta da presidente da República, não nos tira do caos. Pode aprofundá-lo”.

Marina Silva lembrou que, durante a campanha, dizia-se que os problemas do país eram “só uma dor de cabeça e que se iria dar um analgésico. Agora se quer dar doses de morfina”. Segundo ela, o foco do governo neste momento não poderia ser “a ânsia marqueteira de recuperar popularidade”, mas sim “o compromisso ético de recuperar credibilidade”. De acordo com a política natural do Acre e residente hoje em Brasília, “credibilidade é fundamental para o diálogo com a população para que as medidas duras que estão sendo tomadas cumpram o efeito”. A seguir, trechos da entrevista que ela concedeu ao Valor:

Valor: Por que a senhora ficou este tempo em silêncio?

Marina SilvaTenho me manifestado sobre as questões mais importantes da vida do país nas redes sociais, não é um silêncio. Criei um intervalo nas manifestações na grande mídia porque acabamos de ter o final de um processo eleitoral bastante intenso, com sequelas que nem tivemos condições de medir, na realidade política do país. É de bom alvitre que se dê um prazo a cada governo eleito – mesmo aqueles que têm a cômoda ou incômoda tarefa de suceder a si mesmo –, para que diga a que veio. Depois de todos estes acontecimentos, é claro, já temos um quadro que nos permite falar.

Valor: O que a senhora falou nas redes sociais?

Marina: Sobre a corrupção, o escândalo da Petrobras, o retrocesso na política ambiental, a articulação para retroceder na agenda dos direitos indígenas. E a disparidade entre o que foi dito para ganhar a eleição, o que foi exorcizado na hora de ganhar e o que está sendo invocado agora, na hora de governar. Estamos vivendo uma situação dramática na vida política, econômica, social e institucional do nosso país.

Valor: Vê sustentação ou motivos para se pensar em impeachment?

Marina: É legítima a insatisfação da população e igualmente legítima a sua indignação. Foi vendido para a sociedade brasileira um Brasil colorido, sem problemas. Ganhar uma eleição, sabendo que o Brasil estava vivendo uma profunda crise econômica e uma profunda crise política pelo esgotamento deste presidencialismo de coalizão, o esgotamento desta forma de compor o governo com base na distribuição de pedaços do Estado e do orçamento do contribuinte para ter maioria no Congresso, e formar os principais cargos do Executivo, tudo isso está esgotado. A população quer melhorar a vida do Brasil e dos brasileiros. Quer manter o que já conquistamos, corrigir os erros que vem sendo cometidos e criar uma perspectiva de novos desafios. Infelizmente, o que está aí não está dando conta deste recado.

Valor: E o impeachment?

Marina: A ideia do impeachment, sem que se tenha um fato que diga que há responsabilidade direta da presidente da República, não nos tira do caos. Pode aprofundá-lo. A instituição do impeachment, que é um mecanismo constitucional, é uma questão complexa. Não é porque este ou aquele grupo está insatisfeito que se deve recorrer a esta ferramenta. A tentativa das pessoas de querer voltar à normalidade, talvez com a mesma pressa que tiveram para escolher sem se ater a programa, sem se ater a quais eram os compromissos, não pode ser repetida na hora de reparar o erro. Não é dizer fora fulano ou beltrano. O maior objetivo deve ser o de acolher o Brasil. O Brasil, esse sim, está excluído.

Valor: Excluído?

Marina: Do debate de projetos e propostas que não mais fazem parte da cultura dos partidos. Excluído da possibilidade de melhorar a qualidade das instituições, da representação política e de uma forma de governança que não seja baseada no pragmatismo mas, sim, em programa. Não se pode escolher um partido simplesmente porque quer um pedaço do Estado para chamar de seu.

Valor: Como deveria ser?

Marina: Nas democracias evoluídas, a composição dos governos é feita mediante o que os partidos têm de melhor, em propostas e bandeiras, e escalam seus melhores quadros para fazer essa composição. Quando o Partido Verde foi compor o governo na Alemanha, levou a agenda das energias renováveis, de priorizar a questão ambiental e escalaram como ministro de meio ambiente Jürgen Trittin, um de seus melhores quadros. Que ajudou a Alemanha, com quase nada do Sol que temos, a ter uma matriz energética com quase 20% de energia solar.

Valor: A senhora fala em institucionalizar as conquistas. O que quer dizer?

Marina: O Plano Real não pode ser o plano do Fernando Henrique. É o plano da sociedade brasileira que levou à estabilidade econômica. Do mesmo modo, a inclusão social não é do PT ou do Lula. É o esforço de distribuir renda para melhorar a vida das pessoas. Se tivéssemos compreendido a necessidade estratégica da sustentabilidade ambiental para um novo modelo de desenvolvimento, da busca de uma economia de baixo carbono que usa com eficiência os recursos naturais e é capaz de se antecipar a crises como a hídrica e a energética, isso não seria política da Marina, da Rede, do PV. Isso tem que ser a política do país.

Valor: Como a senhora viu a manifestação do dia 15?

Marina: Foi uma manifestação fantástica que extrapolou qualquer expectativa de medição pela quantidade de pessoas e pela forma pacífica como se expressaram. Diferentemente daqueles que torciam que fosse majoritariamente uma orquestração de bandeiras retrógradas que ferem a nossa democracia.

Valor: Como compara com as manifestações de 2013?

Marina: Ali havia um desejo unificado de melhorar o país, com bandeiras difusas, cada um com seu ideal de país melhor, sem ter um foco direcionado. Agora as pessoas mantém o ideal que os unifica de um país melhor, mas querem ver uma representação política melhor, instituições que funcionem, manter a prosperidade econômica, os investimentos, a manutenção do emprego. E que o país se recupere das irresponsabilidades que foram praticadas. Agora têm um endereço claro. Quem patrocinou todos esses retrocessos foi o governo. A pesquisa Datafolha desta semana mostra isso.

Valor: Como a senhora a interpretou?

Marina: Bem, uma parte dos que não votaram no governo se sente indignada porque já sabiam que estávamos vivendo uma situação dramática e que precisava ser enfrentada dizendo a verdade. E entre aqueles que acreditaram no mundo cor de rosa do marketing, boa parte já se deslocou também. Saíram da ilusão para a realidade de que nos foi dita uma coisa que não era bem assim. Não é que a população ache que a dose do remédio pode estar sendo exagerada.

Valor: O que é, então?

Marina: A população vê que se ganhou uma eleição sem ter o prontuário do paciente, que é o programa de governo. E não tendo o prontuário, onde se faz o diagnóstico e se apresentam as propostas, não é que se errou a dose, mudou-se foi o frasco do remédio. Dizia-se que era só uma dor de cabeça e que se iria dar um analgésico e agora se quer dar doses de morfina. Só existe uma coisa a ser feita.

Valor: Qual?

Marina: Não é a ânsia marqueteira de recuperar popularidade. Deve ser o compromisso ético de recuperar credibilidade. Credibilidade é fundamental para o diálogo com a população para que as medidas duras que estão sendo tomadas cumpram o efeito.

Valor: O ajuste fiscal?

Marina: Não só. Tem que ser o ajuste que leve à possibilidade do investimento, que qualifique o ganho social que já alcançamos para que ele não seja subtraído. Na campanha, Eduardo [Campos, candidato à Presidência pelo PSB, morto em acidente em agosto] apresentou a ideia de um Conselho de Responsabilidade Fiscal. Era para que não se permita que se faça a festa que se fez com as contas públicas.

Valor: Como a senhora acha que a credibilidade no governo pode ser reconstruída?

Marina: Só tem um caminho: com base na verdade. Recuperar a credibilidade é fundamental para tirar o país da crise econômica, política e social que nos ameaça. Neste momento não se pode ficar preocupado com popularidade. A melhor forma de se fazer isso é em cima da verdade, do reconhecimento da crise. Neste momento, dialogar com este sentimento de mudança, não é apenas dizer que se está disposto a ouvir. É a disposição para verificar, entre os diferentes segmentos que compõem as forças políticas que representam a sociedade, quais as propostas relevantes para uma agenda estratégica para o país.

Valor: Na campanha, a senhora repetia que pior do que perder era ganhar perdendo.

Marina: Não posso fazer qualquer coisa para ganhar uma eleição. Domingo, enquanto via as manifestações, pensava que se alguém tinha alguma dificuldade em entender a expressão, aquilo era o exemplo em três dimensões. Como é que se diz que está tudo certo e no outro dia se faz algo completamente diferente e ainda pede paciência à sociedade? O governo também tem que fazer sua parcela de sacrifício. Não dá para dizer que é preciso fazer medidas duras sem que corte na própria carne? São 39 ministérios, milhares de cargos comissionados e não tem problema nenhum?

Valor: A crise, tão rápida, foi uma surpresa?

Marina: Quando fui conversar pela primeira vez com Eduardo, disse a ele que a melhor forma de ajudarmos o atual governo era ganhando as eleições. Ter um intervalo, uma transição para outra agenda, outra composição que não fosse mais aquela pragmática, do cargo em troca de apoio, mas programática. Desde 2010 eu achava que era preciso dialogar com os dois legados, da estabilidade econômica e da inclusão social, para manter as conquistas. E estabelecer a não reeleição, exatamente para acabar com a história de que se faz de tudo para ser reeleito em vez de fazer o que é necessário para o país. Não consigo imaginar como é que teremos mais quatro anos dessa governabilidade com base em distribuição de pedaços do Estado.

Valor: Como está a sua relação com o PSB? A senhora pensa em ficar ou sair?

Marina: A minha filiação ao PSB era porque a gente não tinha o registro da Rede e se Eduardo achasse que eu podia ajudar, estaria apta a dar essa ajuda. Se ele entendesse que seu vice deveria ser outro, eu o teria apoiado do mesmo jeito, em troca do programa. Fui apoiá-lo para que ele assumisse a agenda da sustentabilidade, do realinhamento político. O mecanismo anunciado naquele momento era o de uma filiação democrática temporária como acontecia nos partidos clandestinos que tinham que atuar no velho MDB porque não havia espaço legal para se expressar. Foi uma aliança com um partido, a Rede, que não existia legalmente, mas que existia de fato. O que se tinha era um conjunto de ideais. Não fui compartilhar um palanque. Fui compartilhar um legado e, juntos, construirmos uma nova trajetória.

Valor: E seu apoio a Aécio Neves?

Marina: Quando o apoiei falei que achava que a nossa postura devia ser de que nem todo o PT devia ser derrotado, nem todo o PSDB deveria ser vitorioso. Deveria ser vitorioso o PSDB de [Franco] Montoro, [Mário] Covas, Fernando Henrique [Cardoso] e todos os que estabeleceram uma transição democrática para que o sociólogo entregasse o país ao operário. E nem todo o PT deveria ser derrotado. O PT que fez a distribuição de renda, que ajudou a tirar 30 milhões de pessoas da pobreza, esse deveria continuar vitorioso nas políticas.

Valor: A Rede se beneficia desse momento em que as pessoas vão às ruas pedindo que os partidos se mantenham longe?

Marina: Ninguém se beneficia de uma situação ruim para o país. A Rede é uma tentativa de atualizar as ferramentas para realização de um processo político institucional. Mas as velhas estruturas partidárias esticaram demais a corda. E ser de partido, independente de qual seja, já cria um certo resvalo. Eu tenho consciência de que pertenço a outra geração. Somos da época da mobilização feita com bandeiras, pautas de reivindicação, carros de som, lideranças carismáticas. Isso é algo que se decantará no processo político.

Valor: Deste governo, o que a senhora assinaria embaixo e o que não faria?

Marina: Eu não me daria esta tarefa, poderia parecer prepotente. O que os brasileiros estão dizendo é que é preciso manter a estabilidade econômica, o tripé da política macroeconômica, um país socialmente justo, ambientalmente sustentável, culturalmente diverso e politicamente democrático.

Valor: Onde a senhora se coloca neste momento? Na oposição, mas onde?

Marina: É uma posição parecida do PSB e da Rede, eu me coloco em uma posição de independência. Para poder assumir posição de não ser a priori contra ou a favor, mas olhar no mérito as questões de responsabilidade com o país. Eu terminei a eleição e voltei para o meu lugar, da minha militância.

Valor: O que fazer na crise, na temperatura em que está agora?

Marina: O antropólogo Edgar Morin diz que no começo a mudança é apenas o desvio e temos que estar atentos para ver quais são os desvios que queremos que prosperem. Eu brincava com Eduardo Campos: acho que estas eleições são a chance de mudar antes de sermos mudados. Agora temos que nos preparar para ser mudados, a sociedade está nos mudando. Isso não vai parar, não vai arrefecer.

Valor: Qual a sua posição para a ideia de pacto?

Marina: Vejo mais como estabelecer pontos de contato entre os diferentes legados que podem dar a melhor contribuição ao país. Criar uma nova superfície de sustentação para que se faça esta travessia de quatro anos. A presidente diz que não há ninguém no confessionário para fazer mea-culpa. É fundamental que, se a verdade não foi dita, a base para começar qualquer conversa seja o reconhecimento dos problemas e dos erros cometidos.

Valor: Há quem diga que este é o momento do Brasil se conciliar e não do confronto.

Marina: Será um erro, neste momento delicado, imaginar que se trata de dialogar com uma pauta de reivindicação, com meia dúzia de interlocutores, como foi feito em 2013. O que está posto aí é uma energia política da sociedade para mudar a nação. Não é uma tarefa de um partido ou de um governo. É a tarefa dos melhores resultados que se alcançou na política ao longo das últimas décadas. Todos estão preocupados em como a gente acolhe o Brasil, como é que a gente não deixa o nosso país continuar cindido. Apostar em aprofundar essa cisão é o pior dos mundos. Criar a cultura da queixa, como ato de expressão política, também não leva a lugar nenhum. Olhando para as coisas boas que já conquistamos e o que poderíamos conquistar (e uma delas é melhorar a qualidade da política, sem o que tudo mais será sacrificado), podemos fazer algo bom com esta situação dificílima que estamos vivendo. Como é que a gente escala os melhores para poder governar o país? Temos que dialogar com os nossos melhores legados.

Valor: A senhora acredita que se avançou na agenda do país?

Marina: A campanha sinalizou de forma arriscada que, “se não formos nós, não tem como dar certo.” Acredito em um país que institucionaliza suas conquistas porque assim, podem mudar os partidos, mas o que é essencial para a sociedade não muda. Pensar em matriz energética limpa e diversificada é uma necessidade estratégica do país. Isso pode ser o PT, o PSDB, o PSB, o PMDB no poder, não importa, é a agenda do país. Pensar no grave problema da crise hídrica, em como se melhora a qualidade da educação quando se tem 500 mil jovens que levam zero na redação, em como não se permite que voltem os índices de degradação social e de pobreza extrema. Isso é agenda da sociedade brasileira. Tem que ser, independente de qual for o partido.

Valor: Qual a mensagem que se pode captar das ruas?

Marina: A população está nas ruas agindo contra o desgoverno e a corrupção. Mas está se colocando, preventivamente, em relação a outras coisas. Dizendo, se já tem tudo isso de ruim, sabemos que pode ficar pior. Pode vir o desemprego, aumento de inflação, baixíssimo investimento, a população endividada, o risco do país perder grau de investimento. Estamos no começo desse processo. É hora de agir em cima da verdade, com sabedoria e sem a ansiedade tóxica de querer faturar politicamente. E com o compromisso ético de querer recuperar o país, as instituições e os seus ganhos. Sem melhorar a qualidade da política, fica tudo prejudicado.

Link para a entrevista no Valor Econômico – http://bit.ly/1xESqcF

 

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