Marina Silva
REDE

Artigo Valor: Epidemia de descaso

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Artigo publicado na coluna no jornal Valor Econômico em 26/02/16


A proliferação espantosa do mosquito Aedes aegypti veio dar mais dramaticidade às nossas mazelas econômicas e sociais. Nos últimos meses, além das 800 mortes provocadas pela dengue, registraram-se 40 mortes e quase 3 mil casos de microcefalia. Além dos impactos imediatos, há outros, imponderáveis. Por exemplo, estima-se uma rápida contração na taxa de natalidade para o próximo ano, pois o temor à microcefalia pode levar a um maior cuidado em evitar a gravidez. E quantas outras consequências da epidemia não iremos lamentar no futuro?

“Como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem o possui”, murmurava Tiresias ao jovem Édipo, preconizando a tragédia que aguarda no destino dos que – por impotência ou inconsequência – não usam o saber que têm para se proteger. A ciência, ainda que emita alertas com base em conhecimentos arduamente adquiridos, é impotente para dar consequência a suas descobertas, pois isso muitas vezes depende das decisões de políticos e políticas inconsequentes, para os quais não serve um saber que não se molda a seus projetos de poder.

A epidemia, além de uma trágica realidade, é a metáfora do processo político e social brasileiro, com evidentes aspectos patológicos. Chegamos a esse ponto pelo descaso de sucessivos governos com o saneamento, a saúde e os inúmeros retrocessos na agenda ambiental, além do inegável descaso com os sucessivos alertas feitos pelos ambientalistas e pela comunidade cientifica quanto ao imperativo ético de prevenir e mitigar os efeitos deletérios das mudanças climáticas sobre a saúde das pessoas, sobretudo as mais vulneráveis.

Um excelente artigo assinado por Itamar Melo, no site do jornal Zero Hora, faz um resumo do descaso. Começa lembrando que “sessenta anos atrás, em 2 de abril de 1955, o último foco do Aedes aegypti no país foi extinto na zona rural de Santa Terezinha, município do interior baiano. Três anos depois, declarou-se oficialmente que o Brasil havia erradicado o inseto”.

Por que o mosquito voltou? Por falta de combate contínuo e sistemático. Campanhas “de guerra” só são convocadas quando ocorrem muitos casos de dengue. Agora, o zika vírus fez soar o alerta máximo. Os governos se mobilizam e tomam medidas que todos aprovam, mas com a sensação de que tudo isso poderia ter sido feito há muitos anos.

O artigo reproduz o questionamento da Dra. Nancy Bellei, da Sociedade Brasileira de Infectologia: se não surgiu nenhuma arma nova e tudo o que está sendo usado no combate ao Aedes já existia, então por que não foi feito antes? A dengue já era uma doença grave, que justificava essa ação.

De fato, os casos de dengue se multiplicaram, de pouco mais de 100 mil em 1990 para 1,5 milhão em 2015. E o mapa da epidemia mostra a conexão com as mudanças climáticas. Para citar outro excelente artigo, de Cíntia Feitosa para o Observatório do Clima, “a associação de mudanças climáticas globais, ilhas de calor urbanas, aumento da população e más condições de saneamento forma o combo perfeito para a proliferação da praga”. O artigo traz a observação de Christovam Barcellos, pesquisador da Fiocruz: quanto mais calor, mais as doenças vão se espalhar, pois “o mosquito se reproduz mais rapidamente em locais de clima quente.”

Isso nos leva novamente à antiga negligência em relação ao saneamento. Vejamos alguns números dos estudos encomendados à FGV (Fundação Getúlio Vargas) pelo Instituto Trata Brasil. E para não nos determos no impacto ambiental, cuja importância nem todos entendem, vejamos os aspectos sociais e econômicos.

De acordo com as pesquisas, as crianças que vivem nas áreas sem saneamento básico correm risco 32% maior de morte e têm redução de 18% no aproveitamento escolar. Entre os adultos, evidenciam-se os prejuízos ao trabalho: 217 mil afastamentos por ano, causados por problemas gastrointestinais associados à falta de saneamento. Entre os trabalhadores que têm acesso à rede de esgoto, a probabilidade de faltar ao trabalho por diarreia é 19,2% menor e a produtividade aumenta em 13,3%.

Essas doenças provocam forte impacto no sistema de saúde, com custos elevados em milhares de internações e tratamentos todos os anos. Os estudos estimam que o pleno acesso aos serviços de saneamento significaria, em poucos anos, uma economia de R$ 745 milhões nos hospitais e uma redução de 65% na mortalidade.

Obviamente, não é possível alcançar uma situação ideal em pouco tempo. Seriam necessários investimentos de quase R$ 300 bilhões para alcançar a universalização dos serviços básicos, tratamento de água e esgoto. E aqui se pode lamentar duplamente: primeiro, porque os governos descuidaram desse investimento no crescimento das cidades; segundo, porque os recursos desviados pela corrupção – que hoje nos são revelados – parecem ser equivalentes aos que deveriam ter sido investidos.

Em resumo: o Estado brasileiro abandonou a sociedade às intempéries do tempo e isso causa um prejuízo incalculável para o futuro.

A resposta saudável, entretanto, não é apenas “política”. Será necessário mobilizar todas as forças sociais para uma ação que vai muito além da guerra imediata contra o mosquito da dengue e do zika. Trata-se de mudar os padrões de vida para adaptar-se às novas condições e resistir aos novos tempos. Empresas, movimentos sociais, comunidades, coletivos de todos os tipos e lugares, cada um fazendo o que estiver ao seu alcance.

No final das contas, todos teremos que arregaçar as mangas para limpar a sujeira que alguns fizeram e deixaram transbordar, de tal forma, que hoje contamina e ameaça o que um povo tem de mais sagrado, a integridade e o futuro de suas crianças.

Leia a coluna no Valor Econômico

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