Marina Silva
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No meio do tiroteio

Publicado em 11/09/2014
- David Friedlander e Érica Fraga - Folha de S.Paulo

FOLHA DE S.PAULO
DAVID FRIEDLANDER E ÉRICA FRAGA

A acionista do grupo Itaú que nos últimos dias virou um dos alvos preferenciais do PT no tiroteio da campanha eleitoral só pisou uma vez na sede do banco neste ano, para participar de uma reunião da fundação que cuida dos projetos sociais da instituição.Aos 63 anos, a educadora Maria Alice Setubal, mais conhecida como Neca, é dona de 1,3% das ações do grupo (o equivalente a 0,5% do Itaú Unibanco), mas nunca teve cargo nas empresas comandadas pela família.Ela já deu aula em escolas e numa faculdade, e trabalha há anos com educação, cultura e projetos sociais. Seus filhos também estão fora do Itaú. Os dois rapazes trabalham em bancos concorrentes. A filha é psicanalista.Apesar disso, Neca virou alvo fácil para os petistas na corrida presidencial. Uma das principais colaboradoras da ex-senadora Marina Silva (PSB), ela passou a ser tratada como se fosse símbolo da influência que os banqueiros teriam num governo Marina.Um anúncio veiculado pela campanha da presidente Dilma Rousseff na televisão diz que Marina pretende entregar o comando da economia aos bancos. Numa referência a Neca, a presidente disse que não é apoiada nem sustentada por banqueiros.

Neca contribui com as campanhas de Marina e financia um instituto que a candidata criou para desenvolver projetos na área de sustentabilidade. Na campanha deste ano, porém, Dilma arrecadou R$ 9,5 milhões do setor financeiro e Marina, R$ 4,5 milhões.

“Contribuo com a campanha porque acredito na Marina”, diz Neca. “O dinheiro para o Instituto Marina Silva não foi para ela, mas para projetos de sustentabilidade ligados a jovens.” Como a Folha revelou no domingo (7), Neca deu R$ 1 milhão ao instituto.

Ela diz que já esperava os ataques pessoais, até porque eles se repetem desde 2010, quando apoiou a primeira campanha de Marina à Presidência da República. “Só não achava que seriam tão violentos. Estão distorcendo e inventando coisas para colocar as pessoas contra a Marina.”

Única mulher entre sete irmãos, Neca sempre fez opções alternativas.

Aos 15 anos, os pais a mandaram estudar na Suíça. Ficou dois meses fora e voltou fumando da Europa. Anos atrás, separada do primeiro marido, largou tudo para morar com o corretor de terras Paulo Almeida Prado no interior do Tocantins. Montou com ele um hotel fazenda em Itu e estão juntos até hoje.

Nos anos 70, quando estudava sociologia na Universidade de São Paulo, Neca militava no MDB, partido que fazia oposição à Arena, sigla à qual o pai era filiado –o banqueiro Olavo Setúbal foi prefeito biônico de São Paulo, nomeado pela ditadura militar.

A socióloga foi convidada a participar da primeira campanha de Marina pelo amigo Guilherme Leal, sócio da indústria de cosméticos Natura e vice da chapa de 2010.

Ajudou a formular seu programa na área de educação e no ano passado participou da tentativa fracassada de criar a Rede Sustentabilidade, o partido idealizado por Marina e barrado na Justiça Eleitoral.

Há dois anos, ela colaborou com a campanha do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT). Depois de eleito, ele a convidou para ser secretária de Educação. Ela não quis.

Agora, Neca coordena o programa de governo do PSB com o ex-deputado Maurício Rands e atua como uma espécie de fiadora de Marina junto às classes mais abastadas e ao meio empresarial.

Ela já fez a ponte entre alguns empresários e Marina e às vezes consegue contatos que os encarregados de levantar fundos para a campanha possam pedir doações.

Neca vive dos dividendos de suas ações do Itaú. Chegou a trabalhar como professora da Universidade Mackenzie e do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, e foi dona de uma escola de educação infantil.

É fundadora do Centro de Pesquisa para Educação e Cultura (Cenpec). A instituição, muito respeitada na área, tem vários projetos com o governo federal e administrações estaduais e municipais, incluindo a Prefeitura de São Paulo, a cargo do PT.

Neca é uma das idealizadoras da Olimpíada de Língua Portuguesa que, desde 2007, é feita em parceria com o Ministério da Educação.

 

Os ataques a Neca causaram surpresa no meio educacional: “Ninguém que conhece o trabalho dela faria qualquer ligação com banco. Não faz parte do dia a dia dela”, diz Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann.

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