Seremos capazes de desmontar o mecanismo?

Há uma tempestade emocional no Brasil, perceptível nas ruas das grandes cidades, nas multidões comprimidas no transporte público e, mais ainda, nos aglomerados das favelas e comunidades que ocupam de tal forma o centro da cena urbana que já nem se ousa chamar de periferia. A tempestade é de medo, tristeza e raiva. A frustração tem sido o destino de toda busca de realizar antigas ou novas aspirações. A insatisfação é permanente com tudo o que diz respeito ao Estado, aos serviços e políticas públicas. Os sofrimentos da vida difícil da maioria não são nem um pouco aliviados pelo bombardeio diário do noticiário escandaloso sobre os bilhões roubados pelos esquemas de corrupção.
Quem está a salvo da tempestade? Talvez a ínfima minoria que se situa acima da linha d’água, na pontinha do iceberg social? Talvez os raros setores que ainda são movidos por alguma utopia? Ou, mais provavelmente, os que de alguma forma se beneficiam com o sofrimento de tantos.
O cineasta José Padilha definiu bem em um artigo – que agora é lançado como seriado: há um mecanismo de exploração da sociedade, do qual o sistema político corrompido é um aspecto cada vez visível. Um sistema de esquemas. Uma combinação de quadrilhas (deveríamos chamar de facções?) operando de forma especializada com a lógica do pagamento de  “proteção”. O botim é dividido pelos donos do poder que fazem eventuais, raríssimas e pequenas concessões para sociedade. Esse sistema usurpou o lugar da política e esvaziou sua potência como ação, baniu da vida pública a noção republicana de mandato como serviço.
Foi necessário que uma grande vontade de conhecer a verdade se juntasse a um desejo intenso de punir o crime. E com todos os problemas, insuficiências e até erros, o Brasil foi capaz de gestar a Operação Lava-Jato. Com ela temos atendido ao grito desesperado de Cazuza: “quero ver quem paga pra a gente ficar assim”. Quem paga é “a gente” mesmo. Quem recebe são as mãos que só agora começamos a vislumbrar operando o mecanismo. Não há imunização ideológica, não há blindagem religiosa, não há blindagem moral: em todo espectro político-partidário e nas mais diversos extratos culturais e confrarias intelectuais existem os que trabalham para manter o mecanismo funcionando. Muitos dependem dele para sua sobrevivência.
Por isso, há um esforço para manter tudo como está. Para isso, não existe polarização política. Existe um consenso cínico, pragmático, “realista”. É diante desse consenso vergonhoso que a tênue esperança dos que estão de fora, nas bordas, se pergunta: seremos capazes de desmontar o mecanismo? E ainda: encontraremos na ação política e nas instituições da República alguns instrumentos e algum poder de fazer essa tão necessária mudança?
Prece difícil. Estamos vivendo uma estagnação profunda da política e isso não é apenas no Brasil. O recente escândalo envolvendo o Facebook mostra mais uma técnica do vale-tudo da degeneração política. Pouco importa se é ilegal e antiético capturar e usar informações privadas de milhões de pessoas, manipular informações e propagar notícias caluniosas. Se os fins justificam os meios, quanto valem 50 milhões de informações dos usuários de uma rede social diante da possibilidade de eleger o presidente dos Estados Unidos?
Se não há mais nenhum compromisso com a verdade, passa a valer a velha e cínica máxima: não há fatos, só versões. E corremos o risco de ficarmos cada vez mais impotentes diante de uma realidade fabricada por qualquer pessoa, até “pessoas” que nem existem, ou até mesmo robôs e algoritmos que propagam mentiras com a velocidade da luz.
O caso recente de Marielle é tragicamente emblemático. Quando recebi a notícia do seu assassinato, logo me veio na memória a triste lembrança das mortes de Chico Mendes, irmã Dorothy e tantos outros, cuja busca de justiça foi interrompida por um ato de violência extrema. Sim, pois a luta por justiça e contra a discriminação, no Brasil, sempre foi e continua sendo punida com a morte. Nosso país tem dificuldades históricas de lidar com a igualdade.
Mas agora há outra morte, em maior escala do que antes. Os que se escondem no mecanismo perceberam que os tiros matam as pessoas mas não derrubam a causa. Por isso, promovem outras formas de morte, mais sórdidas e covardes. No caso de Marielle, depois de sua eliminação física, tentaram matar sua causa com notícias caluniosas e odientas procurando sua aniquilação simbólica. Está sendo necessário um grande esforço de resistência para que sua trajetória de vida na defesa dos direitos humanos siga inabalável e fale por si.
As causas de Marielle são lutas contra o mecanismo, pois todos sabemos: o dinheiro que remunera o crime é o mesmo que financia o arbítrio policial, as milícias e grupos de extermínio. E todos estão ligados aos propinodutos da corrupção.
O caos na segurança pública é a insuficiência do Estado ou, mais propriamente, uma mostra de que foi capturado por uma lógica de submissão a um realidade que se pretende imutável: o Brasil é o país que lidera o número de assassinatos de jovens negros, defensoras e defensores de direitos humanos, grupos ligados à defesa da terra e da floresta, populações tradicionais, ativistas LGBTI e também de policiais. São incontáveis as vidas perdidas nessa guerra permanente.
Nossa esperança reside na resposta à pergunta deixada por Marielle Franco numa rede social, na véspera de seu assassinato: quantas mortes ainda teremos?
Artigo publicado no jornal Valor Econômico 23/03/18