Marina Silva
REDE

Um passo à frente e outro também

Artigo publicado no portal UOL em 04/12/2016

Nesta semana vivenciamos mais um exemplo do descompasso abissal entre o que clama a sociedade e o que defende a maior parte da classe política. As dez medidas de combate à corrupção, chanceladas por mais de dois milhões de assinaturas, foram atropeladas em nova demonstração explícita de falta de respeito com o que anseia a sociedade e de apego a interesses pessoais e partidários mesquinhos. Ficou demonstrado também o medo – pânico explícito, em alguns casos – de freios e punições à corrupção, por meio do uso pervertido do poder público para cercear e ameaçar as instituições que investigam e punem.

O Congresso, que deveria representar o povo, foi usado como trincheira em causa própria, como bunker em defesa dos piores costumes e artimanhas da política tradicional que, nos seus estertores, esperneia para que tudo continue como sempre foi. Já sem disfarces ou constrangimento – e com transmissão ao vivo – expõe sua absoluta falta de compromisso ético com a população, utilizando-se de mandatos de representação coletiva para salvaguardar interesses e práticas que devem ir para o lixo da história. O jogo de cena é repugnante. A sociedade não tolera mais tanta desonestidade e mentira. Em artigo publicado em dezembro de 2015 – “Dois trilhos para sair da crise” – eu já defendia que “é preciso não compactuar com movimentos erráticos, de salve-se-quem-puder, dos velhos atores acostumados a dominar o espaço da política com sua infindável capacidade de manobra, agora buscando novo polo de atração gravitacional, uma ponte para garantir seu futuro mudando as aparências sem alterar o status quo. É preciso tomar cuidado para não permitir que, sob a oferta dissimulada de um porto seguro na tempestade, fiquem ocultas as mesmas incompetências, privilégios, esquemas de corrupção e desejos inconfessos de frear os rumos das investigações.”

Milhões e milhões de brasileiros, desde 2013, vêm se manifestando em grandes mobilizações que culminaram, nos últimos eventos, com mais de seis milhões de pessoas em todo o país, em um processo autoral de autoconvocação que dispensou partidos, organizações sindicais e estudantis, líderes carismáticos e caciques burocráticos. Mesmo assim, em lugar de tentar decifrar o fenômeno e dialogar com ele, em favor de mudanças inadiáveis para o país, o que temos como resposta do sistema político? Em vez de remover as tranqueiras que hoje obstruem o caminho para uma conectividade real com o espírito dessas manifestações, o que temos, pasmem, é mais e mais indiferença e manobras para burlar as expectativas da maioria da sociedade de vir a ter um país passado a limpo.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma que a política está impotente. E que nós adquirimos a liberdade tanto pra dizer como pra fazer o que quisermos, menos para mudar o sistema. Então ele pergunta: se a política é para juntar pessoas para fazer mais do mesmo, para que serve mesmo a política? No meu entendimento, enfrentar a gravidade da situação política brasileira passa diretamente pelo reconhecimento do papel fundamental desempenhado pelo surgimento de um novo sujeito político independente, que escapa das garras de esquemas centralizadores, dirigistas e messiânicos. Assistimos também ao desmanche progressivo do nefasto monopólio dos que se arvoram ao direito sagrado de serem donos de causas e bandeiras, para depois – como os fatos vêm fartamente atestando – arrogarem-se à licença, em nome do sentido originário delas, para transgredir sem culpa ou responsabilização. É como se ganhassem a carteirinha de sócio remido do bem, a despeito de qualquer transgressão ou malfeito que façam no presente.

A sociedade não quer mais que as decisões e os recursos que pertencem a todos os brasileiros sejam definidos no balcão de negócios em que se transformou uma parcela considerável do sistema político – ressalvadas as honrosas e heróicas exceções de pessoas, lideranças, autoridades e instituições. Por isso, sua manifestação se dá de maneira autoral, espontânea, criativa e pacífica na defesa de causas comuns. Diante da tamanha crise que o país atravessa precisamos oferecer todo apoio para essas manifestações que, quando comprometidas com a democracia e o estado democrático de direito, podem nos ajudar a encontrar saídas para nossos enormes problemas.

Além do nosso apoio às investigações, contudo, é igualmente necessário estabelecer medidas estruturantes que previnam a corrupção. O pacote original das dez medidas propostas pelo Ministério Público pode ser o caminho para institucionalizar o combate à corrupção em outro patamar, a começar pelo fim da quase certeza de impunidade. Para isso, é fundamental abraçar essas propostas e lhes dar cada vez mais a musculatura do apoio social, bem como à consolidação dos trabalhos da operação Lava-Jato.

Não se pode esperar que a solução para a crise venha da parte degradada mas ainda poderosa da política, cuja forma de agir e apego aos seus privilégios estão no alicerce da corrupção endêmica que queremos combater. Esse é um momento decisivo de nossa história. O filósofo Adelmo Genro, de saudosa memória, em sua crítica ao dogmatismo, disse que este era uma espécie de um passo atrás e outro também. O Brasil precisa andar para poder abrir seu caminho. Parodiando Adelmo Genro às avessas, chegou a hora de dar um passo à frente e o outro também.

Leia o artigo no UOL

Comentários

Conteúdo relacionado:


Artigo Valor: O lado esquecido da crise

+ Leia Mais

Esclarecimento para a Folha de S.Paulo

+ Leia Mais

Artigo Valor: Lavoterapia

+ Leia Mais

Continue navegando: