Marina Silva sugere Lava Jato para crimes ambientais em entrevista para UOL

Marina Silva elogia “consciência” de Moro e quer Lava Jato ambiental

Candidata derrotada à Presidência pela Rede, Marina Silva tem sido uma crítica ferrenha dos posicionamentos da equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), quanto a temas ambientais. No entanto, em entrevista ao UOL, ela afirmou que a ida do juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça – que terá os poderes ampliados na nova gestão – poderá ser benéfica.

Marina avalia que Moro tem “consciência” sobre a necessidade de demarcações de terras indígenas e a existência de corrupção na área – como a grilagem de terras e a derrubada não autorizada de árvores. Na avaliação dela, Moro poderá servir ainda como um interlocutor entre a sociedade e o novo governo nestas questões, além de abrir novas frentes de combate a ilegalidades.

“Você pode ter uma espécie de Lava Jato dos que cometem crimes de corrupção contra o patrimônio ambiental brasileiro. É possível fazer, é necessário. O que se fez em relação à Lava Jato contra as finanças públicas, pode se fazer com os recursos públicos naturais do Brasil”.

Marina Silva, ex-senadora e ex-candidata à Presidência.

Em uma hora de entrevista, feita por telefone na última terça-feira (13), Marina Silva falou também sobre o futuro da Rede, partido fundado por ela em 2013 que não superou a cláusula de barreira nas eleições deste ano, a articulação de um bloco de esquerda sem a presença do PT, as expectativas quanto ao governo de Bolsonaro e seu próprio futuro na política.

Confira os principais trechos da entrevista:

UOL – Primeiro, gostaria que fizesse um balanço da campanha. No que avalia que acertou e errou?

Marina Silva – Claro que uma avaliação numa conjuntura como a que temos hoje não pode ser feita apenas à luz das táticas eleitorais, porque os mecanismos de avaliação que forem por esse caminho simplesmente não contribuir adequadamente para o que a gente quer de fato: aprender com os erros, preservar acertos e agregar novas possibilidades. A escolha da sociedade foi para os extremos. Um passo ao populismo de esquerda e ao populismo de direita. Então, a gente tem de fazer uma avaliação para além do que foram os erros de campanha em si, que com certeza tivemos. Agora, a explicação de tudo isso, dessa configuração que temos hoje no Brasil, tem de ser olhada para além disso.

Por que acredita que a sociedade não quis um discurso mais mediador, menos polarizado, como o seu?

[pausa] Acho que temos de olhar numa retrospectiva histórica do Brasil, mas, antes disso, a gente tem de respeitar a vontade das pessoas. E o bom nessas eleições é que a sociedade tinha várias possibilidades e fez sua escolha. (…) Não me disponho a fazer qualquer tipo de discurso para ganhar. Se para ganhar você tem de incitar o ódio, tem de criar bodes expiatórios seja por minorias fragilizadas ou com quem quer que seja, não acho que isso contribua para melhorar nem a qualidade de democracia nem os avanços civilizatórios nem a qualidade da política. (…) O certo é que durante um período, quase oito meses, ficamos em segundo lugar [nas pesquisas]. No período em que ficamos em segundo, terceiro, ainda não estava colocado o candidato do PT, você vê que sequer nos considerávamos nas análises. Me parece que as pessoas passavam por cima da nossa candidatura, iam direto para quem estava no quarto, quinto lugar, porque na avaliação delas não poderia prosperar um projeto político que não vinha dos enquadres tradicionais com grandes estruturas, com polarização. O resultado que temos é a soberana vontade da sociedade brasileira. Posso fazer autocrítica em relação a muitas coisas, mas não posso desistir de que pra ganhar tenho que compatibilizar os fins e os meios.

A senhora saiu de 22 milhões de votos para cerca de 1 milhão. A senhora perdeu espaço entre os evangélicos e outros grupos que conseguiu capturar na eleição de 2010 e 2014. Como o Bolsonaro a fez perder espaço e afetou sua campanha?

Primeiro, não capturei o voto dos evangélicos. Os evangélicos em 2010 e 2014, democraticamente, como gosto de dizer, decidiram dar o voto deles a mim. Dessa vez, não o fizeram. Talvez uma parte relevante continua respeitando meu trabalho, mas uma parte não teve essa identificação. Não acredito na lógica do olho por olho, dente por dente. Acredito nos princípios de que são bem-aventurados os mais frágeis. É na pessoa deles que a gente visita Jesus quando Ele está preso, que a gente os acolhe quando são estrangeiros e deserdados, que a gente mata a sede e fome de Jesus. Acredito profundamente que o resumo de todo o ensinamento do cristianismo é a amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si. E ele não adjetiva esse tipo de próximo, independentemente de quem seja, do mesmo jeito que Ele nos amou. Tento traduzir isso na minha prática política sem instrumentalizar nem a minha fé nem de quem quer que seja.

Um dos pontos levantados foi a falta de estrutura da Rede. O partido só conseguiu eleger um deputado federal, embora tenha ido muito melhor no Senado, e não atingiu a cláusula de barreira, que afeta recursos e tempo de televisão. O que poderia ter sido feito de diferente, não apenas na campanha, mas nos anos anteriores?

Somos um partido de apenas três anos [considerando o registro em 2015]. Não dá pra comparar com partidos que têm já uma trajetória de anos, mesmo sendo partidos pequenos, ainda que tivemos partidos que acabaram de ser criados, como o Novo, que conseguiu. Temos escolhas políticas que são feitas de acordo com nossos critérios programáticos. O fato de a Rede não se dispor a fazer qualquer tipo de aliança em termos proporcionais. Isso é uma escolha. A gente paga preços por ela, para se manter coerente com o programa. Algumas pessoas se tivessem saído para deputado federal teriam sido eleitas, mas preferiram sair para o Senado. Temos a primeira deputada indígena mulher eleita em 500 anos de história do Brasil. (…) A Rede antes tinha dois deputados e um senador. Agora temos cinco senadores e uma deputada. Então, não saímos menores porque não alcançamos a cláusula de barreira.

Como fica a Rede agora? As conversas com o PV e o PPS continuam? Deve se fundir ou corre o risco de acabar?

Os partidos não acabam com o fim do fundo partidário nem o tempo de televisão. Continuarão como partidos. Não significa que acaba. Estamos fazendo uma discussão inicial com o PPS. Eles vêm de um processo de fazer refundação, de mudar nome, rever algumas questões estatutárias e programáticas, e nos convidaram para participar desse processo. Está sendo feita uma convocação extraordinária para avaliar [nossa] continuidade como Rede. O PPS oferece essa possibilidade de fusão política. A Rede vai avaliar no congresso [em janeiro de 2019] se permanecerá como Rede ou participará desse processo com o PPS.

A senhora tem conversado com o Ciro Gomes para a criação de um bloco de oposição sem a participação do PT. Como estão as tratativas? É possível criar um bloco forte sem o PT?

Tratamos de que é preciso uma oposição democrática independente no Brasil nesse contexto difícil em que é preciso zelar pelos interesses nacionais, democracia, proteção do meio ambiente, índios, grupos mais vulneráveis. Nossos parlamentares estão dialogando no Congresso. Estão buscando diálogo também com parlamentares do PSB. Na Câmara, com o PV. (…) É preciso que nesse momento a gente não queira um partido que é o líder. Em alguns temas, uns terão maior protagonismo. Em outros, não, mas estaremos juntos. É preciso ter certo manejo dessas lideranças para que tenhamos mais força e passar para a sociedade credibilidade. Que não é só estratégia de resultado eleitoral ou de cinzas eleitorais.

Como recebeu a indicação da líder da bancada ruralista, deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), para o Ministério da Agricultura?

Espero que a decisão de não fusão do Ministério do Meio Ambiente ao da Agricultura não signifique, na prática, erodir o Ministério do Meio Ambiente. Porque você pode muito bem preservá-lo e solapar suas atribuições. Então, é fundamental para o bem da proteção do meio ambiente, dos direitos que já foram conquistados a duras penas por gerações de ambientalistas, de que não se tenha esse tipo de erosão da governança ambiental. Isso será um prejuízo também para a agricultura, para todos os segmentos econômicos. Não imagino que se queira passar a ideia de que nossas commodities agrícolas dão prejuízo para a Amazônia, o cerrado, o Pantanal. (…) A sensação que eu tenho às vezes é de que boa parte, não digo a maior parte, do governo eleito não tem sequer consciência da sua incompetência para lidar com esse tema. Porque você pode não ter competência para lidar com um tema, mas tem consciência de que não tem e busca os meios para tal. Agora, você não tem sequer consciência, aí fica difícil e pode ter enormes problemas. Essa ideia de que não se vai demarcar nem mais um centímetro de terra indígena, de que as que existem são grandes demais, isso é uma sinalização de que vão rever as que foram criadas em outros governos? De que existe muita unidade de preservação?

O futuro ministro-chefe da Casa Civil, deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), disse que a Noruega precisa aprender com o Brasil sobre a preservação do meio ambiente. Como avalia a declaração dele?

Temos de ter muito cuidado inclusive com a agenda de política externa brasileira. Porque algumas sinalizações dadas em relação ao Mercosul, à China, têm consequências. Uma coisa é um país como os Estados Unidos, uma potência bélica e econômica com um presidente que faz determinadas falas totalmente heterodoxas, e outra é um país com economia emergente. Você não pode querer imitar [os EUA] em tudo. No caso da agenda ambiental, o Brasil já foi um país com protagonismo, ensinou como se controla o desmatamento com política pública e serviu de inspiração para outros países do mundo. Mas, agora, não tem muito o que ensinar não. O desmatamento aumentou 48% só em função dos discursos de campanha do candidato Bolsonaro [dado do “Deter B, projeto do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)].

Como enxerga o meio ambiente nos próximos quatro anos, sob o governo Bolsonaro?

É preciso olhar o meio ambiente não como um fim em si mesmo. Discutir o meio ambiente é discutir a agenda econômica do Brasil. É preciso compreender que essa nova agenda de prosperidade tem de ser também em cima de uma nova economia. A economia de aumentar a produção por ganho de produtividade em vez de expandir a fronteira agrícola é o que vai gerar empregos duradouros. A agenda da energia limpa, renovável e segura é o que pode ajudar a criar emprego e renda. Isso é proteção do meio ambiente em novas bases. Não é preciso sair do acordo do clima. Pelo contrário, gera emprego e se cumpre com as metas assumidas numa convenção internacional com 195 países. Até o agronegócio industrial de passar por cima dos requerimentos e da governança ambiental será um grande prejuízo.

E em relação à indicação do juiz Sergio Moro ao ‘superministério’ da Justiça? Acredita que pode colocar em xeque de alguma forma o legado da Lava Jato?

Acredito muito no provérbio de que a gente conhece a árvore pelos frutos que ela dá.

Até agora os frutos dados pela Lava Jato foram muito importantes para o Brasil. Eu sei que o juiz Sergio Moro tem muita consciência do que isso significa indo para o governo.

Não quero fazer julgamento a priori. (…) Estar no Executivo é ter a possibilidade de combater estruturalmente a corrupção criando medidas para prevenir, combater, punir e, principalmente, promover uma gestão ética, republicana. Tenho certeza de que Moro tem consciência de tudo isso. É um teste de fogo. Ele já sinalizou ter algumas divergências com o governo na entrevista que deu logo que foi convidado. Vai ter uma agenda bem difícil. (…) Esse enunciado de que não será demarcado nenhum centímetro de terra indígena com certeza não tem nenhuma base de realidade e de sustentação ética, constitucional, moral e cultural no Brasil. Esses povos precisam de reparação, não de mecanismos que levem à sua eliminação. Eliminação física em alguns casos com o aumento da violência ou a eliminação sócio-cultural, como etnias. O ministro com certeza tem consciência da complexidade de todas essas agendas. E ele é de longe o ministro mais popular do governo. E tem uma audiência própria na sociedade. Tenho certeza de que ele tem consciência dessa audiência e que ela pode ser usada inclusive para ser uma interlocução dessa sociedade em temas muito caros a ela. Como profundo conhecedor das leis e como uma pessoa que até agora tem lutado no combate à corrupção […], conhecendo as leis para se promover justiça com os índios e não permitir a corrupção contra os interesses dos índios é não deixando grilar suas terras, não permitindo que os que invadiram essas terras continuem ocupando quando, por direito histórico, social, cultural, constitucional, devem ser demarcadas para os índios. É não permitindo a corrupção da grilagem de terras destruindo florestas e fazendo corte seletivo de madeira. Imagino que teremos uma nova frente de combate à corrupção. Uma boa parte daqueles que têm processo no Supremo e não tinham os processos encaminhados em razão de foro privilegiado tem a ver com crimes ambientais. É nesse sentido que estou dizendo. O juiz Sergio Moro tem consciência desses temas.

Quais os seus planos para o futuro? Quais as expectativas?

Continuarei a fazer meu trabalho. Me sustento e sustento minha família com o meu trabalho. Continuarei na minha militância socioambiental, estarei no processo com a Rede de se continuaremos como partido ou se vamos fazer a fusão com o PPS. Vou voltar às minhas aulas, às minhas palestras. Não estou no circuito profissional de palestras, não que esteja errado, mas foi minha escolha. Não tenho tabela de preços. A maioria das que faço é em função das minhas causas na política.

A senhora deixa em aberto a possibilidade de concorrer a uma outra eleição, mesmo que não seja à Presidência da República?

Eu já dei minha contribuição. Fui senadora, deputada, vereadora, ministra, candidata [à Presidência] pela terceira vez. Vou continuar contribuindo com a política nas ideias que tenho, no que acredito, mas não quero fazer de forma individual. Vou fazer com meus companheiros de Rede. A verdade é que a sociedade brasileira tomou uma decisão. (…) Quero poder fazer minhas reflexões com todo o tempo necessário para elas. Nesse momento, a única coisa que posso dizer é que me sinto em paz com minha consciência. (…)

Sei que foi uma derrota, não quero minimizá-la tanto em função da votação quanto em função da cláusula de barreira, mas não olho as derrotas como derrotas em si mesmo. Até porque existem muitas derrotas que estão grávidas de vitórias, né? Isso só quem pode revelar é a história, o tempo.

Fonte: Entrevista Marina Silva – UOL – 15/11/2018