Não devemos correr o risco de desaprender a voar

Ver o trabalho de quem anda pesquisando e registrando a floresta é uma coisa que sempre me emociona, ainda mais se é cantiga de pássaro. Nasci e me criei no interior da floresta, naquele cantinho da Amazônia que é o meu querido Estado do Acre. Sou de uma família de extratores de látex, seringueiros, que constituem uma categoria muito especial entre as populações tradicionais do Brasil. Ainda muito pequena comecei a aprender, com meu querido e saudoso pai, Pedro Agostinho, e com meu tio mateiro, Pedro Mendes, a cultivar o interesse pelas “coisas da mata”, como costumávamos dizer.

Dentre as muitas curiosidades que tinha, uma era particularmente desafiadora e divertida: dar significado ao canto e ao comportamento dos pássaros. Gostava de ouvir, no inicio da madrugada o ritmado canto da siricória repetindo sem parar: “três cocos, três cocos, siricória não é pouco, três cocos, três cocos… Era uma moça do tempo nada refinada, com sua meteorologia cantada de modo estridente pra avisar quando vinha a chuvarada. Menos divertido, pelo grave significado que lhes atribuíamos, era a barulheira dos jacus, que começava com uma dupla, mais perto de casa, quase sussurrando “tá ruim, tá ruim, tá ruim”, para logo obter resposta nas matas em redor, que estremeciam com uma gritaria como se a passarada estivesse denunciando as injustiças do regime de semiescravidão imposto aos seringueiros pela ambição dos patrões. Entre todas, uma ave que me despertava particular interesse era o pequeno nambu macuco, com seu canto educado e rouco que ecoava lá pelas 17 horas nos rumos da vertente de onde se tirava água para o uso doméstico. “Venha cá por favor”, repetia o educado passarinho em tom de súplica. Diziam as más línguas que os moços o imitavam, em noites de lua clara, em combinação com as moças para fugirem da casa de seus pais.

Eram muitos os pássaros, com tantas cantigas de tantos significados. E agora, quando a sensibilidade desses observadores de pássaros me fez voar ao tempo íntimo da floresta, voltei também à alegria do antigo aprendizado. Que esse trabalho prossiga. É preciso preservar o que preserva os pássaros, não devemos correr o risco de desaprender a voar.

*Texto inspirado na matéria do jornalista Jefson Dourado sobre observação dos pássaros no Acre no programa Via Brasil da GloboNews, transmitido dia 3 de novembro de 2018.