‘Não pode ficar em cima do comodismo’, diz Marina sobre os desafios da REDE

A ex-ministra do Meio Ambiente, três vezes candidata derrotada à Presidência da República, se diz tranquila por receber da sociedade a ‘autorização de exercitar a função de continuar sendo uma mantenedora de utopias’

Ao perder o espólio de mais de 20 milhões de votos e conquistar apenas 1% nas urnas neste ano, Marina Silva parece estar aliviada. Nas suas palavras, ao estilo “marinês”, se diz tranquila por receber da sociedade a “autorização de exercitar a função de continuar sendo uma mantenedora de utopias”. A ex-ministra do Meio Ambiente, três vezes candidata derrotada à Presidência da República, dedicou os últimos anos de sua vida, desde que deixou o PV, para a construção de seu partido, a Rede Sustentabilidade, que foi autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2015. Neste ano, com apenas um deputado eleito e, portanto, sem atingir a cláusula de barreira, corre o risco de deixar de existir. A sigla pode continuar no voo solo ou se juntar ao partido que o PPS articula com o Agora! e o Acredito. Marina diz ainda não ter se decidido, mas retruca que não fará autocrítica por pertencer a um partido pequeno. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

A Rede elegeu cinco senadores e uma deputada, em um ano que era importante eleger mais deputados para conseguir ultrapassar a cláusula de barreira e fundo partidário. Houve erro de estratégia?

Se a gente encarar ter uma bancada só como um sinônimo de ter fundo partidário, a gente vai só para a estrutura. Os partidos podem continuar sem fundo partidário. O que se tem que pensar na cláusula de barreira é que, a partir de agora, você não tem mais como fazer as coligações proporcionais. Os partidos pequenos sem recursos, sem tempo de TV, sem poder fazer coligações proporcionais, terão muita dificuldade. O sistema político brasileiro virou um processo senil, você dá todo o fortalecimento para os que estão ou velhos ou adultos, em termos metafóricos, e nada para o que possa prosperar, seja programático ou não. Mas tenho a clareza de que se a melhor forma for ir para um caminho de nos juntar para esse esforço do PPS é uma possibilidade. Ou, a desculpa não pode ser a ausência do fundo partidário.

Mas houve erro de estratégia ao lançar nomes mais fortes ao Senado?

Nós elegemos cinco senadores e eles darão uma grande contribuição no Congresso. Se eles contribuíssem para a cláusula de barreira, certeza estaríamos contemplados. Nós respeitamos o desejo das pessoas. Se esses senadores tivessem saído para deputado federal, com certeza teríamos ampliado muito mais nossas possibilidades. Mas respeitamos essas pessoas e saíram para a função que gostariam de ter saído. E saímos com base nos nossos critérios de não fazer aliança proporcional de qualquer jeito só para conseguir o resultado eleitoral, mantendo a nossa coerência.

A sra. sempre fala de autocrítica do PT. Olhando para trás, com 1% de voto, qual seria a autocrítica da sra. ou da Rede também?

Quando falo autocrítica do PT, todos os graves casos de corrupção, eu imagino que foram trazidos para sociedade brasileira em um contexto em que isso levou a uma descrença profunda na política e nas instituições políticas, com base em dados de realidade, materialidade, julgamento, com direitos aos advogados mais bem pagos, mas mesmo assim, condenações. Se nem com isso é possível fazer autocrítica, é muito difícil. As minhas autocríticas, as quero e as devo fazer. No entanto, eu não posso fazer autocrítica por pertencer a um partido pequeno, foi uma escolha. Alguém pode dizer, bem, que alguém fez a escolha de não se importar com a corrupção, é um direito. Alguém acha que devo fazer autocrítica por não fazer fake news? Por dizer que não devemos fazer o embate, não o debate?

A sra. atribui a esses pontos o seu desempenho nas urnas?

As urnas valorizaram a polarização.

Não tinha como ter sido diferente?

Valorizaram, foi uma escolha. Ou seja, o discurso da mediação, do diálogo, do respeito ao adversário, de dizer para população que é possível fazer, de não separar os fins dos meios, não ganhou força. Não posso, pra ganhar uma eleição, dizer qualquer coisa do Ciro, do Alckmin ou do Bolsonaro. Espalhando fake news para as pessoas. Se isso rende ou não rende voto, dá ou não audiência, é uma escolha. Com certeza, existem muitos erros que precisam… Dentro da Rede, estamos como uma startup política que está avaliando agora.

A sra. costuma dizer que o resultado das urnas reflete a vontade soberana do povo. A sra. acha que, com esse desempenho, o que isso significa para o projeto político da Rede?

Um desafio muito grande.

Alguma coisa deve ser revista?

Estamos fazendo um Congresso, antecipando algo que faríamos com dez anos exatamente para fazer essa avaliação. Será um congresso extraordinário, com a participação de quem puder vir, não teremos recursos para fazer isso. Sou da lógica do Martin Luther King: quando dá pra correr, corre, quando não dá para correr, anda, quando não dá para andar, se arrasta. O que a gente não pode é ficar em cima do formigueiro do comodismo, do pragmatismo, da falta de compromisso com os desafios que se tem. A história é feita assim.

A sra. pretende ser candidata mais uma vez? Talvez não para presidente, mas outro cargo, como senadora.

Neste momento, eu tenho a tranquilidade de quem já deu uma contribuição por três vezes. Então, isso me deixa bastante serena em relação à natureza da contribuição que eu possa dar daqui pra frente. A sociedade brasileira me deu a autorização de exercitar a função de continuar sendo uma mantenedora de utopias. Me sinto plena por ter podido contribuir por três vezes, me sinto em paz com a minha consciência por não ter me omitido ou me preservado.

O que pesa a favor ou contra dessa fusão com o PPS?

Exatamente por ter esse lugar dentro da Rede, seja real ou simbólico, quero participar do debate internamente. Nesse momento, a única coisa que posso dizer é que esse gesto do PPS é saudado por nós, mas tendo a compreensão de que eles já vêm de um debate interno anterior. Nós vamos começá-lo agora e temos que verificar primeiro quais as vantagens de ir. Claro que ter uma força política relevante para intervir no processo político nesse momento é importante, mas é claro também que os grandes partidos criaram mecanismos para que também nenhuma força política possa prosperar neste País. Espero e torço para que esse processo do PPS, independe do que for, possa ser promissor para um novo momento do que exige a política no Brasil e no mundo. A Rede tem que avaliar tudo isso, em um momento como esse, em que a limitação do fundo partidário, essa não pode ser só a razão.

A sra. ou a Rede devem participar desse movimento com Ciro Gomes?

Nesse momento, é importante estar junto. Não se deve ter – não estou dizendo que o Ciro está propondo isso – nem uma liderança fixa, nem um partido fixo. É um campo. Um campo independente, que em cima de questões que possam ser comum a todos, a gente possa agir. Sobretudo com a sociedade, porque a sociedade precisa ter o seu papel também.

Nesta semana, a atriz Maitê Proença confirmou que foi sondada para ocupar o Ministério do Meio Ambiente. A sra. falou com ela? O que acha do seu nome?

Não falamos. Tenho muito carinho por ela. Enfim, não sei qual será sua decisão, mas com certeza ela vai ter todos os elementos para fazer o seu próprio julgamento. Ser sondadas, as pessoas são. Não significa que elas vão dizer sim ou não, a priori.

A sra. disse, em entrevista recente ao Blog do Morris Kachani, que Amazônia está em risco. A sra. acha que a democracia também está em risco?

Nós temos que nos assegurar na nossa Constituição e nas instituições que, a duras penas, estão funcionando. Em diferentes governos, segmentos têm sido prejudicados em relação a ver seus direitos salvaguardados. Os índios, por exemplo, nunca tiveram seus direitos assegurados em nenhum governo. Tiveram algumas conquistas em alguns, mas assassinatos de lideranças indígenas tivemos em todos os governos; de lideranças ambientalistas, em todos os governos; de lideranças sem terra, em todos os governos. Mas mesmo assim as instituições estão funcionando. E quando digo isso não estou olvidando as dificuldades que, em diferentes governos, não vamos esquecer que o desastre de corumbiara ocorreu durante governo democrático. A morte da irmã Dorothy foi durante o governo do presidente Lula. O assassinato de lideranças rurais, ambientalistas, vários, durante o governo da presidente Dilma. Então vamos ter que defender as instituições e que elas funcionem para todos.

Fonte: Entrevista Marina Silva – Estadão – 17/11/2018