Quando ouvidos parecem não escutar os grandes ideais, mais temos que falar deles

Entrevista para o Jornal Chileno “La Tercera”

1) Durante a campanha você disse que “a candidatura do Bolsonaro representa um risco imediato”. E depois do triunfo do candidato do PSL, você disse estar “preocupada porque foram desencadeadas, na campanha, forças que ameaçam a democracia, pela mentira e pela violência”. Você ainda mantém seus medos sobre o futuro governo de Bolsonaro? Por quê?

Como afirmei no final do primeiro turno, farei oposição democrática ao presidente eleito. O resultado das urnas me deixou, ao mesmo tempo, muito preocupada e modestamente confiante. Preocupada porque foram desencadeadas, na campanha, ações que fragilizam a democracia, como a mentira e a violência, a polarização extremada, a potencialização do ódio e do medo, a ausência de um debate programático e o rebaixamento da opinião pública a um patamar inferior ao da racionalidade política. Confiante porque vejo a presença forte e vigilante de uma consciência cívica e democrática, enraizada em amplos setores da sociedade brasileira, que a torna capaz de resistir a possíveis ameaças. Mas a preocupação permanece ao ouvirmos os anúncios polêmicos e controversos de representantes do governo eleito em algumas áreas, como na agenda ambiental e do combate às desigualdades sociais.

2) Como a senhora enxerga os militares integrando o governo?

Estamos vivendo um momento atípico com ares saudosistas por parte de algumas pessoas, mas o mais importante é termos a clareza de que o mapa do caminho que devemos seguir é a Constituição em seu alcance como um todo, sem adesões ou negações seletivas de suas partes em função de interesses de ocasião. O Estado democrático de direito deve ser respeitado, assim como o ideário e os valores republicanos do Estado laico, da separação equilibrada de poderes, do respeito às leis, do funcionamento correto das instituições e do sistema político democrático.

3) A sra. elogia o trabalho de Sergio Moro e da Lava Jato. A ida dele para o governo pode ser um revés na imagem da operação?

Sempre declarei apoio ao trabalho do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e ao trabalho do então juiz Sérgio Moro, por entender que todas as acusações no âmbito da Operação Lava Jato deveriam e devem ser apuradas com todo o rigor como medidas de combate à corrupção e à impunidade. Não há como fazer previsões, mas espero que essa agenda possa ganhar ainda mais força no país. Existem tentativas para frear de forma institucional o combate à corrupção no Congresso Nacional, mudando o arcabouço legal que dá suporte às investigações. A ida do Moro para o Executivo se coloca agora como um grande teste de fogo, contra esse tipo de retrocesso institucional à corrupção que o Congresso ameaça fazer, como por exemplo acabar na prática com a Lei da Ficha Limpa. Isso exigirá que o futuro Ministro da Justiça responda a essas tentativas de forma estrutural em lugar de ações pontuais, por mais exitosas que sejam como tem sido a Operação Lava-jato. Espero também que a corrupção seja combatida na área ambiental, nos crimes de grilagem de terra, desmatamento ilegal, etc.

4) Você usou sua conta no Twitter para criticar a indicação de Ernesto Araújo para o ministério das Relações Exteriores. “A escolha pode trazer sérias implicações e produzir graves prejuízos para o Brasil”, você disse. Quais são esses prejuízos?

As posições públicas do futuro ministro das Relações Exteriores indicam um radicalismo que se opõe ao equilíbrio necessário para conduzir a política externa do País. Além disso, já afirmou que a mudança climática é um dogma criado pela esquerda, uma perversão ideológica globalista. Essa postura se mantida pelo governo eleito, pode produzir um vexame internacional e fazer o país perder décadas de protagonismo nas negociações internacionais, sobre temas como comércio, direitos humanos e meio ambiente.

5) Você foi ex-ministra do Meio Ambiente. E você disse que “Amazônia com certeza corre risco” no governo do Bolsonaro. Por quê?

O Brasil é uma potência ambiental, faz parte dos 17 países megadiversos do mundo, ocupando uma posição altamente privilegiada, e é o número 1 entre os 17. Mas não há dúvidas, a Amazônia, com certeza, corre risco. Lamentavelmente, o desmatamento da Amazônia segue crescendo. Acabamos de receber a notícia de um aumento recorde de quase 14%, a pior marca em dez anos. Mesmo assim, o governo eleito ameaçou acabar com o Ministério do Meio Ambiente, falou em sair do Acordo de Paris, atacou o Ibama, o ICMBio, que são os órgão de fiscalização e execução das políticas ambientais do governo federal, e vários outros absurdos que enfraquecem a proteção ao meio ambiente. Se o que tem sido dito sobre as políticas ambientais for confirmado, a repercussão será muito negativa, o Brasil poderá passar grandes vexames internacionais com implicações sérias para o agronegócio e sua balança comercial.

6) Você se encontrou com Ciro Gomes. De acordo com a imprensa brasileira, falaram sobre a articulação de um bloco de oposição ao futuro presidente sem a participação do PT. Como essa oposição ao governo será? Por que você não integrou o PT neste bloco?

Nos encontramos para falar sobre o desafio de construir uma oposição democrática, em conjunto com a sociedade, com uma linha de atuação em defesa das instituições, das populações mais vulneráveis, do desenvolvimento sustentável e do interesse nacional. Esse trabalho de articulação também está sendo realizado no Congresso Nacional, pelo esforço do senador reeleito da REDE no Amapá, Randolfe Rodrigues, para formação de um bloco parlamentar com dirigentes de partidos que compartilham dessa mesma visão e desses mesmos princípios. A composição política se dará em função do alinhamento com essas teses.

7) As eleições de outubro foram sua terceira campanha presidencial consecutiva. Você obteve o oitavo lugar, com 1% dos votos. Você acha que no Brasil de hoje suas posições não têm lugar? Pretende disputar outras eleições?

As eleições de 2018 ocorreram em num cenário extremamente polarizado, apesar das inúmeras alternativas que foram apresentadas à sociedade. Houve uma escolha pelos extremos, e eu nunca me coloquei nesse lugar. Pelo contrário, talvez, de todas as candidaturas, a minha era a que buscava se constituir como um elo de mediação. Existem posições que podem ser derrotadas eleitoralmente, mas isso não significa que não tenham importância ou não estejam certas. Em uma democracia, você oferece aquilo em que acredita, e as pessoas têm o direito de escolher outra coisa. Escolheram outra coisa. E eu respeito. Como acredito na política como serviço e sou uma defensora da democracia, continuarei contribuindo com meu país, de outras formas, mas com o mesmo senso de responsabilidade e compromisso. Quando ouvidos parecem não escutar e corações parecem endurecidos para os grandes ideais e causas da humanidade, mais temos que falar delas, e sobretudo praticá-las.

8) Como você vê o estado da democracia na região? Você acha que o triunfo de Bolsonaro pode impulsionar outros candidatos de extrema direita na América Latina?

Essa tendência não se manifestou apenas no Brasil. Temos outros exemplos em outras regiões e é importante refletirmos sobre o que está acontecendo no mundo. O Brasil até pelo seu porte econômico na região tem um devido peso e é possível que resultado das eleições influencie outros países. Mas embora exista essa possibilidade de uma onda acontecer, é importante compreendermos o que aconteceu nos últimos anos na região. Os governos de esquerda se apegaram a projetos de poder e relativizaram temas fundamentais para o fortalecimento democrático, como o combate à corrupção, ajustes econômicos voltados para o alcance de uma prosperidade sustentável e compartilhada que é a única forma de promover a e diminuição da desigualdade de forma efetiva e duradoura evitando a armadilha do populismo, que até promove algum tipo de ganho social por um período curto de tempo, mas que logo é minado pela falta de suporte econômico, educacional e tecnológico, servindo tão somente como meio de arrebanhar votos para que os grupos que assim procedem se perpetuem no poder.